domingo, 3 de agosto de 2014

desdobramentos do fim: a velha do juízo final

A Velha do Juízo Final

Bárbara Walker

Séculos antes de o cristianismo chegar a Islândia, uma sacerdotisa de lá reuniu tradições antigas num poema, o Völuspá ou "Profecia da Sacerdotisa", um equivalente pagão do nosso Livro da Revelação. 
Ela descreveu o Ragnarok, o fim do mundo, com os detalhes universais de costume: grandes incêndios, inundações, terremotos, desintegração de montanhas, queda das estrelas do céu, eclipse do sol e da lua, a ascenção da Grande Serpente do abismo, com terríveis batalhas e cataclismas levando a destruição de toda humanidade e de todos os deuses - mas não, significantemente, das deusas.

Depois de um tempo incomensurável, haveria uma nova criação. A segunda vinda de Balder, Filho de Deus, anunciaria a raça nova e melhor de divindades. Uma nova terra surgiria do Abismo informe (Ginnungagap). As cachoeiras cairiam outra vez dos penhascos. Os virtuosos morariam num lugar mais brilhante que o sol e este seria um novo sol, a filha brilhande da antiga Deusa-Sol que se vahamva Glória dos Elfos.

A raça humana seria renovada por um casal que viveria no orvalho da manhã, no ambiente mágico da Árvore do Mundo. A mulher seria chamada de Vida e o homem, Aquele-que-deseja-a-Vida. Como novos Adão e Eva, esse casal lembra o nome hitita original de Eva, que era Hawwah e significava "Vida".

Em termos gerais, esse era o mesmo mito indo-europeu do juízo final conhecido em todo continente eurasiano. Era um mito de idade incalculável, datando talvez da mais antiga percepção da humanidade de que tudo quanto tem um começo terá um fim, até o próprio universo. O mito do juízo final é encontrado em todas as culturas. As versões que apareceram no norte da Europa mostram uma clara afinidade com aquelas do sudeste da Ásia, revelando seu parentesco pré-histórico.

Os escandinavos diziam que Surt, deus do fogo, viria com sua hoste flamejante das longinquas terras quentes do sul, Mutspelleheim, a Terra da Maldição da Mãe, para incendiar o mundo. Surt parece idêntico a Agni, o deus védico do fogo, que era descrito com as mesmas palavras. Sua ardente terra do sul era quase com certeza a Índia, o lar da Velha Mãe Káli, que levaria o mundo ao fim com sua maldição.

Há muitos outros paralelos entre os mitos da Índia e os do norte da Europa. Havia na Escandinávia divindades arcaicas de muitos braços, como o deus Starkad, cujos braços extras tiveram de ser eliminados. Havia poderes mágicos e criadores da Grande Mãe, chamados siddhi no sul ou seidr no norte. Havia os sábios primais de estatura giganteca, chamados de rishi no sul e risi no norte, e reis sagrados humanos intitulados raj, rex, rag ou rig.  Havia a própria Káli negra, a Grande Sombra ou A Informe, tanto no norte quanto no sul, engolindo todos os deuses no fim do mundo. No juízo final, Káli se transformaria no Vácuo ou Abismo de ausência primordial da forma, a Velha neha que, "na dissolução final", devora tudo quanto criou: "Assim como o branco, o amarelo e outras coisas desaparecem no preto, da mesma forma (...) todos os seres mergulharam em Káli"

Como a Deusa Skadi do norte, ela se tornou a Sombra Negra que devora todos os deuses em seu Gotterdammerung, ou "Crepúsculo", uma tradução pouco acurada da Entrada-na-Sombra dos deuses. Ginnungagap, o Abismo que devorava todas as coisas e do qual todas as coisas sugiram na criação, era uma visão setentrional do ventre negro de Káli, o caos, a ausência de forma ou o vácuo. A versão celta do mesmo símbolo era a Mãe Sulis, a fenda da mulher, ou olho, ou buraco negro, ou caldeirão: a yoni cósmica.

Na versão Isalandesa, a batalha final dos deuses, do tipo Armagedon, começa com o último som da trombeta tirado do "chifre ribombante" (Gjallaehorn) do deus Rig-Heimdall, cujo título significa "rei"e é cognato do sânscrito raj. Um dos maus agouros anunciados pelo som do seu instrumento é a soltura do Naglfar, o navio da morte, de suas amarras. Esse curioso navio é feito inteiramente de unhas de homens mortos. A história de Voluspá faz uma pausa para advertir que sempre se deve cortar rente as unhas dos mortos, para que a conclusão do navio seja retardada o mais possível. Parece que havia uma crença de que, quando as unhas dos mortos finalmente fornecessem  material suficiente para terminar o navio Naglfar, o juízo final estaria iminente. O costume superticioso de cortar as unhas dos cadáveres persiste até hoje.


(...continua )

Trecho retirado do livro "A Velha - Mulher de Sabedoria e Poder"






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